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Crítica

Ninguém solta a mão de ninguém, mas as nossas mãos já foram largadas há tempos

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O movimento “ninguém solta a mão de ninguém”, surgido após a eleição de Bolsonaro como presidente do Brasil (leia aqui), é lindo. E me senti acolhido por ele. Mas ao analisar as eleições 2018, o que eu percebi é que as mãos dos LGBTs foram largadas há muito tempo, por aqueles que se disseram nossos aliados e apoiadores. E isso me doeu muito.

Quantos rostos carismáticos que eu considerava um porto seguro se viraram contra nós, mostrando sua verdadeira faceta fascista? Foram muitos, desde amigos e familiares à celebridades que construíram sua carreira nas costas do amor e devoção das manas do Vale.

Vimos divas “LGBT” se omitirem quando mais precisamos de seu apoio. ELAS NÃO foram capazes de dizer ou publicar um simples ELE NÃO. Com certeza temendo perder dinheiro público, proveniente de shows bancados pelo estado que agora é comandado por um capitão fascista, além de não quererem desagradar seus fãs que apoiam o presidente opressor. Isso só provou, que para esses artistas o que sempre importou na verdade era nosso pink money. Nossas vidas para eles nunca tiveram valor algum além do monetário.

Sem contar aquelas “celebridades” que caíram de cabeça no fascismo declarando o desejo de que o Brasil voltasse à “boa era” da ditadura, em que mães eram torturadas na frente de seus filhos. Quando a opressão era grande e na arte que se encontrava algum alento para aguentar tanta opressão. Arte essa tão odiada e criminalizada por apoiadores do novo presidente, “é melhor jair se acostumando, a mamata da lei rouanet vai acabar”, bradaram aos quatro ventos sem nem ao menos saber como essa lei funciona.

Tudo isso nos provou também que agora, mais do que nunca devemos alçar ao status de “diva/ícone LGBT”, com as quais gastamos nosso suado dinheiro, aqueles artistas que de fato fazem parte de nossa comunidade, mesmo que aliados. Pessoas cuja história de luta e apoio à comunidade LGBT é real. E, não somente, um discurso escrito por sua assessoria de imprensa para ser feito numa postagem patrocinada nas redes sociais.

Toda essa omissão e descaso machucaram e muito e vão reverberar por um bom tempo.

Agora descobrimos da pior forma possível que nenhum direito é uma garantia universal eterna. Neste momento nos vemos diante de um precipício de desilusões, com a ameaça de que o pouco que conquistamos como comunidade LGBT (casamento homoafetivo, uso do nome social, etc.) pode ser extinto com o início do próximo governo.

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Então eu retorno à poderosa mensagem “ninguém solta a mão de ninguém” e reforço que nossas mãos já foram largadas, mas precisamos ter em mente que nossas mãos foram largadas por aqueles que nunca as seguraram de verdade.

Se tem uma coisa que essas eleições fizeram foi unificar uma comunidade LGBT quebrada e desunida. E não me refiro aqui ao homen gay cis branco padrão, que dentro de seu privilégio de branquitude e normatividade segue sem temer pela sua própria segurança. Falo das lésbicas, trans, bissexuais, LGBTs pretos e periféricos que nunca se sentiram parte dessa “associação GLS” que sempre se importou, quase que exclusivamente, com o homen gay cis branco padrão.

Agora nos atentamos para a verdadeira diversidade da comunidade LGBT e quem de fato está ali no fronte da luta recebendo os primeiros xingamentos e ofensas, levando os primeiros socos e tiros. Nossa luta é por todos esses marginalizados que na vida real são nossos verdadeiros heróis, mas que na hora de entrar para história e virar entretenimento são apagados para dar lugar a um homen gay cis branco padrão que pouco fez por nossa luta.

Luta essa protagonizada por Marsha P. Johnson, mulher trans negra que atirou a primeira pedra contra a repressão policial na Revolta de Stonewal.

Marsha e Sylvia, heroínas de Stonewall.

Nossa luta também foi protagonizada por João Nery, primeiro homem trans brasileiro a se submeter a cirugia de redesignação sexual no país, ainda na época da ditadura.

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E longe de mim incentivar mais uma vez a divisão de nossa comunidade. Quero que as pessoas trans, cis, pretas, indígenas e brancas lutem juntas, lado a lado, por nossos direitos sociais e à vida. Mas dessa vez sem largar a mão de nenhum membro dessa comunidade, como tem sido feito ao longo dos anos.

Nossa história tem muitos protagonistas que chegaram a dar sua vida para termos o mínimo de liberdade que desfrutamos hoje. Daí nos cabe proteger e continuar tal legado de cabeça erguida. Façamos valer nosso novo mantra “ninguém larga a mão de ninguém”, já que estamos aqui para proteger os nossos. Pois nos momentos de dificuldade serão nossos amigos e parceiros que estarão na trincheira de batalha ao nosso lado. Então eu te pergunto sinceramente:

Quem ficaria na linha de frente por você?

E você, ficaria na linha de frente por quem?

Não desanime ou desista… E lembre-se que nosso hino começa com:

“At first I was afraid, I was petrified [No início eu tive medo, fiquei paralisada]”. E termina com “I will survive [eu vou sobreviver]”.

Porque este é o sentimento que devemos ter sempre em mente: Eu vou sobreviver!

NÓS VAMOS SOBREVIVER… E RESISTIR!

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Saullete é preto, gay e comunicólogo que criou a Draglicious com o intuito de compartilhar com outros fãs seu amor pela arte drag e por Drag Race. Além de informar e entreter seu público, Saullete levanta discussões relevantes para amantes da arte drag e para a comunidade LGBT.

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