RuPaul’s Drag Race tão branco quanto o Oscar

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O Oscar pelo segundo ano consecutivo não indicou nenhum artista negro as grandes premiações. O que gerou revolta na comunidade artística negra americana que, com toda razão, decidiu boicotar o evento. A gente se indigna por isso, mas o mesmo acontece no universo de RuPaul’s Drag Race e ninguém parece se importar.

Ano passado realizamos uma enquete com o elenco dos sonhos para o All Stars 2 e nenhuma das quatorze queens escolhidas, pela maioria de nossos curtidores no Facebook, eram negras. Fala-se muito no voto popular estrangeiro, como eles são intolerantes, mas aqui mesmo tamanha tolerância a diversidade não existe.

É triste perceber de que de nada adianta problematizarmos posturas intolerantes, quando nosso discurso de desconstrução não sai da esfera digital. Não passa de um ato para angariar likes de outros fãs. O que uma drag preta deixa a desejar em seu talento e carisma, que a sempre torna ignorada? Quantas queens magras e brancas medíocres continuam conquistando inúmeros fãs, sempre apresentando mais do mesmo, enquanto as queens negras vivem passando dificuldades para provar seu trabalho? Penam tanto que nem a hipoteca da própria casa conseguem pagar (leia aqui).

Não adianta culparem a edição shady de Drag Race, para justificar não gostarem das queens negras, pois o programa reflete o que o público deseja e faz. Tanto é que ele tem embranquecido desde a quinta temporada. As quatro primeiras temporadas eram ousadas e bem plurais. Mas desde então só tem prevalecido queens brancas magras que é o que o público se identifica.

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E o reality tem sua imensa parcela de culpa nisso, não vamos defender quem não merece. Drag Race tem culpa por ser covarde e se render ao embranquecimento do show em busca de audiência. Tanto é que em seu famoso Battle of The Seasons desse ano, evento que reúne várias queens que passaram pelo show, não há negras, nem latinas e somente uma queen gorda.

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Elenco da turnê Battle Of The Season de 2016, somente queens brancas.

E no cenário drag nacional se repete a mesma coisa. Estamos cansados de ouvir relatos de queens negras e gordas que não conseguem espaço nas festas e casas de show para elas, por não estarem dentro do padrão esperado. Isso desmotiva mesmo, daí é normal muitas queens desistirem de sua arte por não terem público que as abrace.

Portanto não adianta usarem a velha desculpa do “gosto pessoal”, pois gosto padronizado não passa de construção social. É o lugar comum que muitos se escoram, para não assumirem o racismo que ainda se faz presente em seu “gosto”. Se queremos um mundo mais justo, é preciso abrirmos os olhos para nossas próprias injustiças, porque apontar o demônio alheio é fácil, difícil mesmo é confrontar o nosso demônio interior.

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A desconstrução é diária, não podemos esquecer isso. Não é uma linha de chegada que atingimos e pronto, não temos mais preconceito e intolerância para o mundo. E parem de usar Latrice como token* para camuflar seu racismo. Porque isso não cola mais.

*: Token é o comportamento problemático de se apropriar de pessoas ou grupos oprimidos para se justificar um ponto de vista ou para se isentar de ser preconceituoso ou opressor. Exemplo: “Não sou racista, tenho até amigos negros”. (Definição extraída daqui)

 

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