Revista faz ranking de drag queens e causa indignação

A New York Magazine fez um ranking das “rainhas mais poderosas” que causou indignação na comunidade drag dos EUA e nas RuGirls.

Modo Escuro

Na última semana um grande portal publicou um rankings das drags queens “mais bem sucedidas dos Estados Unidos”. Poucas horas após a publicação, tal lista foi dura e merecidamente criticada. Durante o atual período do Mês do Orgulho LGBT, a revista New York Magazine/Vulture lançou um ranking das drag queens mais poderosas da América, ao lado de fotografias que foram tiradas nos bastidores da DragCon em Los Angeles (veja aqui). E o resultado final é basicamente um lixo.

Obviamente, as fotos são lindas, embora nem todas drags tenham curtido. Os registros foram feitos pelo extremamente talentoso e renomado Martin Schoeller, que fotografou os 100 LGBTs mais influentes de 2018 da. Mas o ranking que o acompanha é problemático, e a seguir estão quatro razões para isso:

1. Nenhuma drag queen ajudou, realmente, na criação da lista.

Por que permitimos que pessoas que não participam da arte drag sejam as únicas a terem tanto poder de julgamento? Há várias pessoas listadas como responsáveis por montar e fazer a curadoria desse ranking, mas pelo visto são na maioria meninos gays que só fizeram drag uma vez durante o Halloween.

Mas essa questão não é apenas isolada do ranking.

Mesmo em Drag Race, Ru já apareceu acompanhada por algum jurado convidado que era outra drag queen? É melhor ver Lady Bunny ou Bianca Del Rio julgando uma rainha que Bobby Moynihan, porque elas realmente sabem o que estão falando sobre isso. Um homem branco cis hétero julgando drag é como um vegano julgando uma competição de churrasco.

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2. A lista tinha apenas competidoras de RuPaul’s Drag Race.

Dizer que as drag queens mais poderosas do mundo estão apenas em Drag Race é limitado, míope e simplesmente não é verdade.

Há muitas rainhas que criaram marcas fortes para si e são extremamente influentes fora dos limites do reality show. Muitas dessas rainhas são de uma geração diferente, porque elas não tinham um programa de TV para sustentar sua carreira. Elas tinham que fazer isso à moda antiga, com anos de trabalho duro e determinação.

Isso inclui, mas não se limita a Lady Bunny, Peaches Christ, Coco Peru, Jackie Beat, Sherry Vine, Joey Arias, Varla Jean Merman, Chi Chi LaRue, Miss Richfield 1981, Heklina, Lypsinka, Dina Martina… É possível continuar por um bom tempo.

Drags lendárias de New York

Outras rainhas como Vicky Vox, BibleGirl, The Boulet Brothers, Rhea Litre, Horrorchata e Marti Gould Cummings conseguiram criar seu próprio sucesso sem entrar na sala de trabalhos durante essa era de popularidade da série.

Então, por que elas não foram reconhecidas? Por que elas não estão na lista?

Muitas dessas rainhas participam da DragCon LA 2019, então elas estavam acessíveis lá para tirar fotos. Destacar a influência do drag em 2019 somente através das rainhas de RuPaul’s Drag Race parece um conteúdo patrocinado da Viacom (a empresa controladora da VH1).

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3. As descrições são preguiçosas, às vezes debochadas e cheias de erros.

Como alguns usuários do Twitter apontaram, muitas das descrições têm erros factuais que qualquer editor ou verificador de fatos poderia descobrir se eles realmente colocassem algum esforço na realização desse trabalho. Por exemplo, Alaska é originalmente da cidade de Erie e esteve na quinta temporada, não na sexta. Miss Fame não ficou em segundo lugar na S7. Aja não participou do AS4, mas do AS3. E Madame Laqueer esteve na S4 e não na S10, isso para citar alguns erros.

Mas, além desse desleixo embaraçoso, muitas das descrições são tão simples que parece deboche. De descrever Chad Michaels como a vencedora mais velha (e apenas isso), até apontar que Aja foi criticada por ter pouca habilidade em maquiagem. Pelo visto, os repórteres desta obra muitas vezes apenas apontaram as fraquezas de uma rainha e deixaram por isso mesmo. Afinal sabemos que há muito mais no histórico de Jujubee do que o fato dela nunca ter vencido um desafio principal.

4. Por que estamos classificando as pessoas?

Uma coisa é classificar os melhores destinos de viagem para 2019 ou os melhores bares de cerveja artesanal em São Paulo. Mas esses são lugares e coisas que não têm sentimentos, mesmo que possam ser o resultado do trabalho duro de alguém.

No entanto, o ranking de pessoas simplesmente não parece certo quando a influência, o poder e a estima são tão difíceis de comparar, especialmente em uma forma de arte tão diversa quanto o drag.

Com certeza é muito ruim ser uma das rainhas listadas na seção Bottoms desta lista, já que elas reservaram um tempo fora de sua cabine ou das muitas outras obrigações durante a DragCon para posar para o fotógrafo. Para então, ver a imagem delas sendo usada para algo que é previsível em sua concepção, mal executado e, em seguida, fazer uma pesquisa com elas dizendo que elas não estão à altura das outras rainhas listadas certamente seria decepcionante e perturbador.

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Parece que, de fato, as rainhas não sabiam que estavam sendo classificadas pela revista, como Willam escreveu no Twitter:

“Ninguém nos disse que eles iriam nos classificar, mas hey imprensa é imprensa. @vulture.”

Claro, é o Mês do Orgulho LGBTQ e, de repente, todos os principais portais querem a chance de gerar tráfego, porque o assunto está em alta. Mas esta obra é outro exemplo de quando a mídia convencional faz conteúdo queer, eles precisam fazer melhor. E enquanto isso é ótimo na teoria, porque nos dá mais exposição, quando executado, pode falhar.

É incrível  que há drag queens na capa da New York Magazine, mas seria melhor que elas não tivessem que estar lá para esse ranking.

Via Advocate.


Confira a repercussão desse ranking entre as RuGirls clicando aqui.

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